caiu-me o retrato em pedaços.
Cacos catados e arrumados,
no lugar de antes, um espaço
O que é esse sentimento? Essa dor vazia no estômago que irradia para todo o corpo e me tira os ares dos pulmões. Não tem nada a ver, o sonrisal não é capaz de resolver todas as mazelas do mundo, nem eu, por isso a dor. Hoje é dia de tirar a poeira dos livros, tentar ler aqueles que já comecei e não consegui terminar, por que paramos de lê-los? Existe algo em mim que os faz enfadonhos, ou seria o autor? Nada de mais nisso, sempre culpa do academicismo das humanas e seus quilos de literatura por semestre. Como ler outra coisa?
Pois bem, nunca gostei muito das arrumações, se eu fosse um bicho seria um caracol, levaria comigo a casa sem arrumá-la. Direi isso na próxima dinâmica de grupo que enfrentar, já desisti de tentar encantar as psicólogas e suas suposições imbecis. Refuto! Pensei em animais longe do senso comum, como o krill.
Isso, serei um Krill albino do mar do norte. E por que você seria um Krill albino do mar do norte? Perguntaria o olhar burro inquisidor (pleonasmo).
Gosto do krill (peço socorro tentando absurdamente encontrar poesia no Krill, poesia no Krill, KRILL POÉTICO)....porque ele é um animal que ninguém se lembra que existe, e, por conseguinte, não é incomodado por perguntas estúpidas e suposições baratas, ah que inveja do krill. E sabe do que mais? O único medo dele é a baleia Azul, é, eu assisto Discovery.
Sim, meu inglês é fluente.
Esse é o típico momento em que o transtorno obsessivo aflora. Coloque os olhos dos sebastianistas a ver navios esperando a volta do rei morto na batalha de Alcácer-Quibir na cara de uma vaca hindu, transporte-os para sala da dinâmica de grupo, espere alguns momentos, dentro de segundos aparecerá uma voz, quase um eco de seus pensamentos - levanta e enfia a porrada nessa broaca – se nada acontece é sinal que seu transtorno obsessivo compulsivo, o TOC, na verdade, está dentro da normalidade, assim como o meu. Apenas restará a certeza de que o Krill não agradou.
O Aprovado escolheu águia, ou seja, brega e senso comum. Como odeio águia e prefiro o Krill, meu lugar é no mar do norte.
Minha materialidade é reflexo,
Luzes que sobram do regurgito das coisas.
E se for negro, índio ou coreano?
O que dizer de mim mesmo?
Eu que nunca me vi.
O que dizer do mundo reluzente?
De existência apenas no que é claro e sol,
Eu que nunca o vi.
Ando pelas ruas, passos desconexos,
coleciono as migalhas luzidias que sobram.
Edifico abstrato, sedimento devaneios.
Porque assim é preciso para que se viva.
Caminha depressa
Caminha depressa, guria.
Que o mundo atrás de ti vem.,
depressa, não nega,
Não poupa ninguém.
Anda guria,
anda que atrás de ti vem
Tua mãe, tua avó, tua tia, tua prima....
Anda guria que atrás de ti vem.
Serás só mais uma,
Na terra... ninguém.
Não olhe pra trás,
Não mova, não fale...
Só corra, menina.
Pra onde?
Não sei!
Por que?
Não sei, menina.
Anda depressa.
Menina pára, se vira, olha...
Hoje tem três filhos, um cachorro, uma casa no campo; se chama Cecília de Castros Barcelas, nome de casada, e tem uma poltrona muito confortável onde se senta todos os dias esperando a morte chegar. É a mais bonita estátua de sal que já vi.
Talvez restasse plenitude
E o sol, por si só, bastasse
Mas não,
nem verde nem inerte.
As pernas levam pelo mundo,
e o sol, por si só, não basta.
Talvez, por simples analogia,
se fossem comparáveis os jardins,
diria que na alma dos homens só nasce discórdia.
Derrelição.
Que inveja, pteridófitas,
que sobre os olhos da indiferença
encontram a felicidade.
Nascem, crescem e morrem, satisfeitas, à luz.
Aos homens, a plenitude é negada
O riso, por si, só não basta...
O gozo, por si só, não basta...
Os sonhos, por si só, não bastam...
Pessoas discutiam na mesa do bar,
o povo fugia pra rua,
os cacos, os socos, os tiros,
tudo fora de seu lugar,
menos a samambaia
que continuava a sonhar.
Hoje morri,confesso.
Morto na concepção sutil da palavra.
Morto na materialidade simplista.
Morto no cotidiano banal,
morto.
Morro como quem morre sozinho, num enterro chuvoso, frio...
de guarda-chuvas pretos que não se abriram
de flores que nunca secaram,
de pedras que ninguém botou num túmulo israelita.
De mim, não resta nada,
nem sonho, nem dor, nem choro, nem vela.
não há coração que bata
não há coração que apanhe.
Não há nada.
Gostaria de dizer que do riso fez-se o pranto,
mas não seria o primeiro, nem o último, então digo
do riso fez-se nada...palavra que repito.
Nada.
Se fosse pedra, árvore ou nuvem,
talvez vida restasse,
talvez isso, ou aquilo outro, talvez...
Mas não resta, não resta, o que repito.
Nada.
Apenas me abraço com a dialética e seu materialismo voraz,
com a sonoridade de palavras desconexas,
com versos rápidos e inseguros.
Ainda existo, sou coisa, largada no canto, mas coisa.
Se talvez atrapalhasse, se talvez me colocasse no meio do caminho como as pedras de Drummond.
Se talvez berrasse, ou camuflasse, ou fingisse que amasse,
talvez me notassem,
talvez isso, ou aquilo outro, talvez...
talvez, nada.
Ou restasse, quem sabe, a condescendência dos homens,
os olhos vazios da tolerância idiota,
o respeito à insignificância alheia.
A calma do medo, a ignorância...
Mas não resta, só resta o que repito,
Nada.
Assim estou, não sou, como se diferença fizesse,
ser assim pobre, sem valor.
Res nullius da qual ninguém se apodera.
Olhos abertos que vêem, mas não enxergam.
Se enxergassem talvez nem ligassem.
Se ligassem talvez não entendessem.
Se entendessem talvez não gostassem,
e que diferença faria enxergar?
Ouvidos estáticos que não vibram, nem com música nem com estouro.
Se vibrassem, as pernas talvez não pulassem nem dançassem.
Se dançassem ou pulassem seria como se não gostassem,
e que diferença faria vibrar?
Confesso que morri,
Até encolhi como os mortos costumam fazer.
Estático, estático, res.
Hoje morro, confesso,
morro sem poesia de vida minha, ou nenhuma outra.
Morro, sem reclamar, sozinho,
sem capa de jornal, sem notícia no horário nobre,
sem ardil estardalhaço de coisa nenhuma.
Morro na quietude moribunda de quem hoje, morre...
com a certeza absoluta, de quem amanhã...
Mata!